Como fisguei o gringo

Já se passaram sete anos desde que nos conhecemos. E ainda precisamos responder a mesma pergunta quando descobrem que somos um casal multi-cultural: “como vocês se conheceram?”. Depois de tanto tempo, já é algo que estou acostumada a ouvir. Mesmo o mundo sendo tão globalizado, ver casais de nacionalidades diferentes ainda é algo que surpreende.

Mas e aí, Gabi? Como é que vocês se conheceram!?

Nos primeiros seis meses de relacionamento eu brincava que havia comprado o Mikko no E-Bay, quase ninguém entendia a piada e eu precisava explicar o que era E-Bay e ainda acrescentar um “é brincadeira” no final. Passei a falar a verdade mesmo.

Conheço muitos casais que tem histórias dignas de comédias românticas, amigos que se casaram com o primeiro namorado, outros que estão com os amigos de infância e até meu primo logo se casará com a “namorada” da infância que ele havia perdido o contato quando entrou na adolescencia. Minha história não é assim. É inusitada e divertida, assim como é nossa relação até hoje.

Nossa primeira foto junto! Do dia que nos conhecemos

Bem, por alguma razão o Mikko escolheu o Brasil como destino para seu intercâmbio de seis meses. Ele sabia que lá fazia calor, que havia praia, café e futebol. Fez suas malas com camisetas de manga curta e shorts, as Havaianas ele compraria no Brasil, junto com as roupas de frio já que a universidade o enviou a Curitiba. Já fazia um mês que ele estava na cidade quando ele e seus amigos decidiram conhecer uma balada perto das 2h da manhã. Eu estava com meu amigo no aniversário da irmã de uma amiga em um bar que, infelizmente, não fez nosso estilo. Decidimos sair da festa e ir dançar, estávamos um tanto alegres quando chegamos perto das 2h da manhã no Wonka (uma balada gay de Curitiba). Na fila um argentino veio conversar comigo, dentro da casa noturna percebi que os demais meninos não eram argentinos e achei tão legal que os convidei para dançar,  só um loirinho de bochechas vermelhas que não respondia o que eu perguntava, apenas sorria, que aceitou meu convite. Dançamos a madrugada inteira e quando estava indo embora ele percebeu que estava sozinho na balada, seus amigos já haviam ido embora! Com meu grande coração ofereci carona e ele aceitou, disse que morava próximo na rua Ioam Negueram (ou qualquer coisa parecida a isso) e como não entendi pedi que me guiasse. Ele estava apavorado sentado no banco de trás e gritava que eu era louca, só porque entrei sem querer em uma contra mão. Parei o carro e mandei ele descer, ou desce ou fica quieto. Decidiu ficar quieto e antes de sair do carro anotou meu nome. Os amigos que entendem das técnicas da sedução dirão que comecei fazendo tudo errado. Sabem aquela música do Exaltasamba que fala assim “enquanto eu me arrumava algo me dizia você vai encontrar alguém que vai mudar a sua vida da noite pro dia” ? Me faz lembrar esse dia!

Alguns dias depois ele me adiciona no Facebook e me envia uma mensagem em português (utilizando o Google Tradutor) me convidando para tomar café, sim amigos, café! Eu, que nem café tomo, aceitei. Nosso primeiro encontro acabou sendo em um bar de motoqueiros tomando cerveja e assistindo UFC, na época essa luta não estava na moda. Bem, só com esse breve relato acho que já ficou claro que nenhum de nós dois entendia muito bem das técnicas de seduzir e muito menos do significado da palavra romantismo.

Depois do primeiro encontro veio o segundo, terceiro, quarto… Quando percebi estávamos sempre juntos e o melhor é que não falávamos a mesma língua! Eu não falava inglês, muito menos finlandês, e ele não falava português. Mas eu adorava estar com ele, nós nos divertíamos muito e conversávamos sobre diversos assuntos e o mais legal é que nos entendíamos! Nossos encontros eram sempre rodeado de amigos, eu marcava de sair e enviava uma mensagem dizendo que iria em tal lugar a tal hora e pronto, lá estava ele com seus amigos! Era amor de balada, amor de bar, amor de bagunça.

Foto do dia que termiamos

Em uma de nossassaídas o amigo argentino me contou que havia terminado com sua namorada brasileira pois um dia ele precisaria voltar ao seu país e ele achava complicado um relacionamento a distância dar certo e que não queria se envolver mais com ela e acabar sofrendo. Passei a noite pensando no que ele havia me contado e quando voltávamos para casa eu terminei com o Mikko, se um relacionamento Brasil x Argentina não iria dar certo imaginem um Brasil x Finlândia! Já estávamos a dois meses juntos e a única coisa que ele me perguntou foi “Tem certeza? Então tá.” Morri com a resposta fria, queria que ele se ajoelhasse e dissesse que faríamos dar certo, mas não, ele apenas concordou e pediu um último abraço! No dia seguinte chega uma mensagem no meu celular “você ainda não quer me ver mais? Pensei que podíamos ir no cinema amanhã.” Segui o conselho de meus amigos (se joga, quando ele for embora nós cuidamos de você) e respondi que sim, queria ir ao cinema. E nossa vida voltou ao normal, muitas festas e muita amizade. Conheci seus pais e resolvi apresentá-lo aos meus, inclusive o convidei para passar o natal conosco.

Em janeiro me preparava para me despedir do amigo/namorado que havia transformado seis meses da minha vida quando ele me conta que havia pedido para prorrogar por mais seis meses o intercâmbio e havia conseguido! Eba, teria mais seis meses para curtí-lo e para me divertir ensinando o português!

Mikko vestido de “Papai Noel”

Sempre que penso na nossa história e em como tudo aconteceu não consigo encontrar o momento em que eu descobri que o amava. Os primeiros seis meses foram de muita diversão e eu não sabia qual era nosso status de Facebook. Era carnaval e ele disse que sim, que queria ser meu namorado. Eu que perco o amigo mas não a piada, menti que no Brasil era preciso pedir aos pais para namorar. Mesmo achando esse costume muito ridículo enquanto o trio elétrico passava perguntando “quem tá solteiro dá um grito!!” ele perguntava a minha mãe se podia ser meu namorado.

 

É carnaval e somos oficialmente namorados!

Passamos tanto tempo vivendo essa amizade colorida que os outros seis meses como namorados não foram diferentes. O Mikko era meu companheiro de festa, ele era amigo dos meus amigos, ele me apoiava quando eu precisava e fazia que eu me sentisse livre e amada. Com pouco tempo ele se tornou o queridinho da família e começou a ser impossível imaginar uma vida sem ele por perto, mas precisaria ser possível. Evitávamos pensar no assunto e aproveitamos nosso tempo como se não houvesse amanhã. Mas o temível amanhã chegou. Lembrar dele me arrepia e me faz chorar até hoje.

O Mikko não queria que eu visse ele indo embora, então planejou tudo. Iríamos ao Rio de Janeiro passar um final de semana juntos, no domingo ele iria me levar ao aeroporto e na segunda ele iria embora. Ou seja, era ele quem me viria embarcar. Para isso eu precisava faltar um dia de trabalho, como sou uma péssima mentirosa fui contar a verdade a minha diretora para pedir o dia de folga. Chorei explicando a ela a história, ela me abraçou e disse que era para eu curtir muito o meu amor. Nossos dias na cidade maravilhosa foram incríveis, aproveitamos muito e não tocamos na despedida em nenhum momento, assim como não fizemos promessas vazias. Sabíamos que namorar tendo um oceano e um continente entre nós não seria fácil e nenhum de nós queria ficar preso a algo que talvez não tivesse futuro. No momento em que déssemos o beijo de tchau nosso relacionamento acabaria e ficaríamos com nosso ano para sempre na memória.

Nosso tchau no Rio de Janeiro

Na última noite o Mikko cantou a música I don’t wanna miss a thing do Aerosmith para mim e até hoje me emociono quando a escuto (I don’t wanna close my eyes / I don’t wanna fall asleep / because I’d miss you baby… Eu não quero fechar os meus olhos / eu não quero cair no sono / porque eu sentiria a sua falta, baby…), a música inteira é linda e descrevia perfeitamente o momento. Chorei o trajeto indo para o aeroporto, chorei esperando o avião e chorei durante vários dias. Sentia uma falta tremenda daquele branquelo de olhos azuis que nunca pensei que sentiria, mas a vida é dura e nem sempre as coisas acontecem da maneira mais simples. Sabia que era melhor chorar um pouco sabendo que o que vivemos juntos ficariam para sempre comigo do que não ter essas memórias.

Conversávamos todos os dias, a desculpa era para não perder a amizade. Um dia chega uma carta para mim direto da terra do Papai Noel, vinha junto a um chocolate. Receber cartas é algo que me deixa muito feliz e essa veio com um gosto especial, estava toda escrita em português e agradecia pelo tempo que tivemos juntos, linda! Com o tempo a saudade que era para diminuir só aumentou e eu decidi que usaria todo o dinheiro que tinha na poupança para ir atrás do homem que eu amava, que essa história de guardar o tempo bom na memória era conversa para boi dormir!

Juntos outra vez!

Minha família, que também morriam de saudades dele, juntaram meu aniversário, formatura e natal e me presentearam com euros (ganhei dinheiro das minhas tias, prima, mãe, abuelos…). Estavam todos torcendo por nós! Embarquei no natal, estava indo pessoalmente buscar meu presente. Quando desembarquei e vi aquele sorriso esperando por mim me senti completa outra vez. Como um amigo disse “se a Caipirinha, bebida tradicional brasileira, dá certo com Vodka, bebida finlandesa, como um casal formado por uma brasileira e um finlandês não daria?”. O Mikko planejou todos os detalhes da viagem, ele sabia os passeios que faríamos e até o que comeríamos! Foi durante essa viagem que ele pediu para casar comigo! Não teve anel, porque não foi um pedido planejado, mas teve neve e luz de velas. Teve um sim, teve abraços e beijos. Teve também uma sogra triste por descobrir que o filho estava voltando para o Brasil, assim, de repente. E teve eu agradecendo todos os dias por ter agido com o coração e comprado a passagem que mudaria minha vida!

E foi assim que eu conheci, agarrei e não larguei mais o meu viking!

Nosso casamento 🙂

Texto originalmente publicado no blog Bela Mångata em 06/08/2015
(O primeiro parágrafo foi alterado)

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