Estrela, cadê você?

Estrela

Algo estranho vem acontecendo, não tenho mais ficado em casa sozinha nem um segundo. Os humanos que vivem comigo não têm mais ido trabalhar e nem estudar. Não saem visitar os amigos, não viajam. Sinto falta das longas horas de silêncio em que a casa era só minha.

Meu sofá preferido para tomar horas de banho de sol está sempre ocupado. Me sinto vigiada a todo momento. Ontem mesmo estava caçando uma mosca no jardim e percebi que meu pai me filmava. Bem, o humano que me alimenta e me dá cafuné quando eu peço.

Essa invasão de privacidade foi a gota d’água. Juro que não foi nada planejado, não sou conhecida pela minha habilidade em planejar. Sou mais de agir pelo impulso, deixo meu instinto me guiar. Mas ontem, durante meu passeio noturno, decidi não voltar para casa.

Alguns meses atrás eu conheci o Nespresso. Um gatão grande e com a pelagem que fazia com que o confundissem com um tigre. Ele não mora muito longe de mim e na sua casa mora apenas uma humana de idade. Foi ele quem me convenceu de que passar uns dias na floresta, longe de todos, me faria bem.

Alberto

8.30

Acordei e não encontrei a Estrela em lugar nenhum. O pote de ração está vazio, mas nem sinal dela pela casa.

12.00

Estou começando a ficar preocupado, ela nunca passou tanto tempo fora de casa. Verdade que ela troca a noite pelo dia, passa as noites na rua e o dia inteiro dormindo pela casa. As crianças estão tentando me acalmar, quando foi que elas cresceram tanto?

22.00

Cada minuto que passa sem saber da Estrela, meu desespero aumenta. Coloquei ração no pote e deixei a portinha aberta para que ela possa entrar.

7.00

É sábado, sete horas da manhã e eu já estou de pé. Em dias normais diria que é a idade chegando, mas hoje a razão é outra. Sonhei com a Estrela a noite toda, incrível como a gente se apega a um gatinho desse jeito, não é?

Cheguei na cozinha e as crianças já estavam lá. Os dois com sorrisos imensos, sorri também, Estrela voltou! Pelo menos para comer… novamente o pote está vazio.

Psit psit psit… psit psit psit.

Nada. Nem sinal dela. Pelo menos sabemos que ela está por perto e alimentada.

13.30

Passamos a manhã imprimindo panfletos de procura-se, me parte o coração vê-la assim. Andamos pela vizinhança, falamos com os vizinhos e colamos os planfetos por toda a parte. Espero que alguém a veja ou que ela se veja e decida voltar.

22.00

Não sei como não pensei nisso antes! A portinha segue aberta caso ela decida voltar, mas agora está bloqueada para sair. Quando ela aparecer para comer, não vai poder sair.

Nespresso

Estrela está vivendo a aventura da sua vida. Passa o dia dormindo sob alguma árvore e a noite caçando vários animais. Sua brincadeira preferida é correr atrás de coelhos e esquilos. Ontem mesmo ficou encantada quando avistamos um veado.

Ela não sabe, mas tenho ido até sua casa durante a noite. Descobri que o pote de comida está sempre cheio e que a comida que ela ganha é muito melhor que a minha.

É a terceira noite que venho comer, mas na hora que estava indo embora descobri que estava trancado. E agora? Tentei fugir pela janela, mas o balcão da cozinha estava uma bagunça! Joguei tudo que encontrei pelo caminho no chão: enfeites, tábuas, cestas de pão, canetas…

Enquanto organizava um pouco a casa não escutei que alguém descia as escadas. Que susto levei quando ouvi o grito! Só entendia o ‘não era a Estrela vindo comer, não era ela!’. Assim que vi a porta aberta saí correndo.

Estrela

Estava no meio de uma corrida com um furão que conheci ontem, quando o Nespresso apareceu assustado. Me contou que estava na minha casa, o que ele fazia lá? E que precisou fugir por causa dos gritos. ‘Agora entendo porque você prefere viver na floresta’ me disse.

Passei o resto da noite e o dia seguinte pensando nisso.

O sol já havia se posto, eu estava cansada de vagar pela cidade, resolvi voltar para casa. Nesse horário o silêncio reina por lá. Quando entrei e senti o cheiro de casa fiquei feliz! Nespresso entrou logo em seguida me procurando, disse para irmos embora, que lugar de gato é na rua e não preso em uma casa junto de humanos que decidiram viver isolados do mundo.

Brigamos.

Alberto

Escutei gritos durante meu sonho. Ou não era mais sonho?

Desci as escadas correndo e lá estava nossa Estrela! E o enorme gato malhado! Estavam embolados brigando. Parecia cena de desenho animado. Como os separo? Será que irão me arranhar? Por que brigam? Onde a Estrela estava?

Comecei a gritar, o misto de alegria e desespero eram tantos que nem percebi que gritava. O gatão se assustou e sumiu. Estrela tentou fugir também, mas a portinha estava trancada. Me olhou com um olhar que misturava raiva e frustração e subiu as escadas, consegui espantar o gatão para fora de casa.

Quando subi procurá-la vi que havia usado minha cama como caixa de areia e novamente havia desaparecido. Dessa vez não foi longe, todas as portas e janelas estavam trancadas. Passou os dois dias seguintes nos evitando. Nos evitando e dormindo.

Eu falei para ela que também estou cansado e estressado com toda essa situação. Também tenho vontade de fugir. Tenho vontade de ver tudo voltando ao normal.

Mas vai voltar, Estrela. Logo teus humanos estarão fora de casa e ela voltará a ser toda tua. Logo.

Baseado em uma história real.

Photo by Manja Vitolic on Unsplash

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