Uma contração a mais, é uma contração a menos. Foi com essa frase que viajei os quase 45 minutos até a maternidade. Sentada sob uma toalha, com o Tens nas costas e o GPS na mão, eu me dividia entre guiar o Mikko e encontrar a melhor posição para aliviar a dor durante as contrações.

Apesar da ansiedade pelo novo, eu estava incrivelmente tranquila. Talvez pelo fato de ter estudado sobre o parto, talvez por ter incluído na minha rotina exercícios que ajudam nessa hora, talvez por ter buscado ouvir relatos positivos (e fugir dos negativos!) ou talvez porque quem estava do meu lado se envolveu junto comigo no aprendizado e sabia quais eram minhas expectativas. O kickboxing me ensinou que a dor não é eterna e minha neuvola me dizia nas consultas que a dor do parto, era a dor da vida. Parece bobeira, mas tentar enxergar a dor com um pouco de carinho (eu sei, não é fácil!!!) me ajudou a viver o momento com mais leveza, afinal a dor e inevitável, o sofrimento não.

Chegamos às 3 da manhã e fui levada a uma sala de triagem. Ali já começaram a monitorar as contrações e os batimentos cardíacos da bebê, sorria feito boba ao descobrir que já estava com 4cm de dilatação e a cabeça bem baixa! Só faltavam seis!! Ou será que ainda faltavam seis!? Uma enfermeira veio coletar meu sangue e eu, que tenho pavor de agulha, gelei. Chega a ser engraçado pensar que me sentia super confiante em parir, mas suei frio para tirar quatro potinhos de sangue. Enquanto isso, Ira, a parteira que iria me acompanhar, preparava minha sala de parto e enchia a banheira, já que eu disse que era assim que gostaria de trazer minha neném ao mundo.

Chegamos na sala, ganhei roupão, camisola e chinelos. Monitor de contrações na barriga e de batimentos cardíacos colado na cabecinha da bebê, estava liberada para entrar na banheira. Ira deu algumas dicas para aliviar a dor durante as contrações e saiu. Ligamos uma música (Rodrigo Alarcón) e as horas foram passando com conversas, risadas e água quente e massagem nas costas durante as contrações. Que delícia estar dentro d’água! Era o único lugar que eu conseguia ficar de cócoras e até sentar (fora, só de pé!).

Acredito que a situação era tranquila aquela madrugada já que a Ira voltou ver como eu estava e ficou um tempão conosco conversando, ajudando nas massagens durante as contrações… Às 4h30 a dilatação já era de 5 cm e apesar das dores, estava tranquila e confiante! Ira nos avisou que estava indo embora e que a nova parteira logo viria nos conhecer e se apresentar.

Henna demorou para aparecer, até comentamos rindo que enquanto a Ira não saía do nosso quarto, a nova não queria nem nos conhecer… Mas quando ela chegou roubou meu coração! Durante as contrações fazia carinho na minha cabeça e me dizia sempre que eu era muito forte e corajosa. Mikko estava um pouco angustiado de me ver com dor e perguntou para a Henna quais opções alem de água, massagem e chuveiro eu tinha para aliviar as dores. Eram quase seis da manhã quando aceitei receber algo, uma anestesia local no colo do útero. Óbvio que eu estava com mais medo da tal agulha do que das dores que eram cada vez mais fortes.

A parteira telefonou para a anestesista que assim que chegou me explicou que eu receberia quatro picadinhas, mas para isso eu precisaria sair da água e deitar na cama. No intervalo das contrações recebi a anestesia enquanto Mikko segurava minha mão e a Henna massageava meu ombro. As dores não diminuíram 100%, mas ficaram mais leves e eu aproveitei para dormir um pouco.

Acordei pouco mais de 1h depois quase renovada e pronta para mais rodadas de contrações, mas antes hora de tomar café da manhã para repor toda a energia gasta até aquele momento! Ouvimos choro de bebê no quarto do lado e ficamos animados! Será que logo era a nossa vez?

Às 10h da manhã a dilatação já era de 7cm e já faziam 7h que estávamos ali. 7h ouvindo Rodrigo Alarcón porque na partolândia as coisas acontecem em um ritmo um pouco confuso. Faltava tão pouco e eu estava aguentando melhor do que imaginei que aguentaria. Henna me ensinou como soltar a respiração, que nessas horas já vinha com gemidos de dor. “Som baixos, Gabi, você precisa guiar a força para baixo, para ajudar o quadril a dilatar e a bebê descer.” Eu tentava movimentar o quadril sempre entre as contrações, com o objetivo de abrir caminho para o parto. Eu já conseguia sentir quando a dor estava chegando e na hora gritava “ajuda!” para que o Mikko corresse pressionar minha lombar para aliviar a dor.

Trocamos a playlist para MPB e, às 11h eu aceitei o tal gás da alegria (ilokaasu) para ajudar a manejar as contrações. Demorei 8 horas para testá-lo porque sabia que existia a possibilidade de eu me sentir enjoada e até vomitar por causa do gás, por sorte isso não aconteceu! Não gostei do gás, não conseguia respirar fundo o suficiente para ele vir e estava cada vez mais irritada com a máscara. Pelo menos me distraía com algo e me concentrava menos na dor.

A dilatação já era de 8cm quando saí da banheira para almoçar. Foi então que uma onda de contrações super doloridas começou. Era acabar uma e já começava outra, assim atropeladas. Eu não conseguia comer, não conseguia falar e nem mudar de posição (estava apoiada no balcão), as massagens não ajudavam, tentamos novamente o Tens e não fazia nem cócegas. Chamei pela parteira, queria saber o que estava acontecendo. Ela ficou conosco, disse que não sabia porque meu corpo estava fazendo isso, mas que a bebê estava bem, sem alteração no batimento cardíaco.

Pedi ajuda para voltar para a banheira e algumas contratações depois eu pedi por anestesia. Isso significava que não poderia mais voltar para a banheira. A Henna viu que eu estava triste e entre ela e o Mikko tentavam me animar. Diziam que eu era muito forte por ter passado tantas horas sem remédio e que com a anestesia eu poderia descansar o que era bom, já que precisaria de força para o expulsivo.

O anestesista veio e aplicou o remédio nas costas. Escolhi um mais fraco que a epidural, mas que só poderia ser usado uma vez. Assim que começou a fazer efeito, eu dormi por quase 2h.

Acordei bem, animada e totalmente enxarcada. A bolsa tinha terminado de romper! Corri me lavar e ganhei uma calcinha e absorventes imensos para a água que ainda escorria. Peguei o celular pela primeira vez e fiquei distraída lendo e respondendo mensagens. As contrações estavam voltando aos poucos, mas tão leves que não me incomodavam…

Às 18h as contrações já eram novamente fortes, a anestesia já tinha perdido totalmente o efeito. Durante o tempo anestesiada meu corpo parou as contrações, algo que eu já sabia que iria acontecer e eu não dilatei nada. Só pensava que se tivesse aguentado talvez a bebê já tivesse nascido. E novamente Mikko e Henna tentavam me mostrar que aquela tinha sido uma boa escolha, que não fazia sentido aguentar tanta dor por teimosia. A verdade é que mesmo depois de dormir eu já estava cansada de estar ali… Para animar coloquei reggaeton e fui tentar rebolar para ver se terminava de dilatar.

Quando a parteira voltou eu estava no chão com a bola, tinha encontrado uma posição confortável e queria ficar ali para sempre. Ela sugeriu que eu levantasse para ver se havia dilatado e eu aceitei. 9 cm. Conversamos e decidi aplicar ocitocina para acelerar esse último centímetro junto da epidural para não sentir a dor.

Como o anestesista já havia colocado o catéter, a própria parteira podia aplicar a anestesia. Virei para o lado esquerdo, ok. Quando virei para o direito subiu sangue no catéter. Foi então preciso chamar o anestesista. Enquanto isso eu não podia mudar de posição, nem sair da cama. As contrações vinham e foi a pior parte do dia, sentir as dores deitada.

O anestesista chegou e olhava o que havia acontecido, as contrações chegavam e eu não sabia mais o que estava acontecendo. Só sei que passei a ouvir muitas vozes, Henna me mandou virar de barriga para baixo, ficar de quatro com o peito encostado na cama e respirar por uma máscara. Lembro que eu dizia não querer mais o gás da alegria e o Mikko colocar a máscara no meu rosto dizendo ‘respira, rápido, é oxigênio’!

O próximo que ouvi foi a Henna dizendo ‘ela já dilatou tudo, bebê está quase saindo!’ e um pouco depois ela disse que eu podia deitar e as dores sumiram assim como os donos das outras vozes. Eu estava sem entender nada, ela me pediu desculpas mas disse que precisava ser rápida.

No dia seguinte Mikko me explicou tudo. Enquanto o anestesista ajeitava o catéter e aplicava a segunda parte da epidural, os batimentos cardíacos da bebê caíram, provavelmente por conta da ocitocina. Durante o expulsivo, Henna me disse que ela abriu a ocitocina e fechou em seguida, recebi pouquíssimo, quase nada. As vozes que ouvi eram de outra parteira e a médica. Estavam se preparando para me levar para uma cesárea de emergência e que a posição que me colocaram ajudava a enviar oxigênio para o bebê.

Foi tudo tão rápido! Quando esperávamos pelo anestesista, comecei a sentir pressão no cóccix e a Henna disse que eu podia fazer força se quisesse, mas eu tentava controlar com medo da bebê tentar nascer sem a dilatação estar total… Assim que o susto passou ela nos disse, sorrindo, que eu estava pronta e a bebê tinha cabelos escuros! Me senti animada e aliviada para fazer força!

Agora sim faltava pouco! Eu não queria dar a luz deitada, mas estava tão cansada da última onda de contrações e tão relaxada pela anestesia que não tinha forças para testar outras posições. As parteiras (no expulsivo são sempre duas) me sugeriram deitar de lado e assim eu fiz. Descobri depois que é uma das melhores posições para o parto normal (enquanto a posição ginecológica é a pior).

Por conta da epidural eu não sentia dor e nem contração, mas sentia a vontade de empurrar e sempre que a vontade vinha eu avisava ‘agora’ e nós quatro nos concentravamos no que estava acontecendo. Mikko me ajudava a segurar a perna para cima, Henna guiava a direção que eu tinha que fazer força com o dedo e a outra parteira ia narrando o que estava vendo. Também por conta da anestesia, essa fase do parto foi longa, mais de 1h… Mas entre os empurrões (em média 15 minutos), a gente batia um papo e até dava risada. Em certo momento, olhei para o relógio da parede e perguntei a Henna se ela não iria embora, já que o horário de trabalho dela já havia terminado (ela comentou em algum momento do dia como era a jornada dela), rindo ela disse que queria conhecer a bebê!

Um pouco depois a Ira (a da manhã!) apareceu e a Henna foi embora. Fiquei feliz em ser alguém conhecido. A Henna foi nos visitar no quarto no dia seguinte, perguntar como eu estava e conhecer a bebê.

A bebê já estava na porta e as enfermeiras perguntaram se o Mikko queria ver a cabecinha. Ele primeiro disse que não, mas depois foi e ficou emocionado ‘já dá para ver a cabeça dela!’

‘Força, mais um pouco e ela vai estar aqui!’, mas eu estava cansada e compartilhei isso com todos. Disse que não queria mais parir, que tinha cansado. A parteira repetiu ‘mas falta pouco!’ e eu queria saber exatamente quantos empurrões faltavam. ‘Uns dois’, mentiu ela. Até porque é algo incerto, eu entendo. Mas a mentira dela me deu o gás final que faltava.

‘Agora!’ Respira fundo, expira expulsando o bebê. Saiu a cabeça! Que sensação estranha. Na próxima contração nasce. Um, dois e… Às 20.34 já tinha um bebê na minha frente! As enfermeiras limparam ela um pouco e já colocaram em cima de mim, eu não consigo encontrar palavras para descrever a sensação desse momento, de ter visto ela sair e de ter pego ela no colo pela primeira vez. Tão pequena…

Enquanto eu olhava boba para minha neném, a Ira me avisou que me daria um shot de ocitocina para eu expelir a placenta. No minuto seguinte um órgão imenso estava na minha frente! No outro minuto Mikko estava com uma tesoura nas mãos cortando o cordão (e eu filmando meio deitada, com a bebê no peito!).

Tive uma laceração pequena e levei dois pontos, não senti nada. Ira saiu e nos deixou ali em êxtase curtindo nossa hora dourada. Fiquei mais de uma hora com a bebê no meu colo, segurando sua mãozinha, completamente emocionada com tudo que tinha vivido naquele dia. Gerei e pari. Que loucura!

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